Marina tinha prometido a si mesma que não choraria naquele dia. Era apenas um apartamento vazio, apenas móveis velhos e cheiro de naftalina — apenas a vida inteira de sua mãe comprimida em caixas de papelão. Mas quando sua mão tocou o espelho de madeira escura no canto do quarto, algo deslizou entre seus dedos. Um envelope amarelado, preso com fita adesiva seca que se desprendeu ao menor toque, como se tivesse esperado por ela durante anos.

O nome escrito na frente a fez parar de respirar. Não era o nome dela. Era o nome de um homem — Eduardo Cavalcante — escrito com a caligrafia inconfundível de sua mãe, aquela letra redonda e inclinada que Marina havia aprendido a reconhecer nas listas de compras, nos bilhetes da lancheira da escola, nas cartas de aniversário. A tinta estava desbotada, mas a mão que tremeu ao escrever era a mesma que havia segurado a sua durante toda a infância.

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Marina se sentou no chão frio do quarto, o envelope no colo, o coração batendo mais alto do que deveria. Ela sabia que deveria guardar aquilo, talvez perguntar ao tio Renato, talvez simplesmente jogar fora sem ler. Mas os dedos não obedeceram. O envelope estava aberto antes mesmo que ela percebesse o que estava fazendo, e a folha dobrada três vezes desdobrou-se como uma ferida antiga que recusa cicatrizar.

"Eduardo, se você está lendo isso, então eu já não estou mais aqui para explicar. Por isso preciso que você saiba: a menina não é do Antônio. Nunca foi. E quando ela crescer e começar a fazer as perguntas que eu sempre temi, quero que você tenha coragem de dizer o que eu jamais consegui."

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O papel caiu das mãos de Marina. Ela olhou para ele no chão como se fosse uma cobra enroscada — perigoso, vivo, prestes a atacar. O quarto pareceu girar devagar. A menina. Só havia uma menina na família de sua mãe. Só havia uma filha. O nome do pai na certidão de nascimento — Antônio Ferreira da Silva — de repente parecia uma fantasia, uma história bem contada demais, uma mentira gentil que durou trinta e dois anos.

Ela pegou o celular com as mãos que não paravam de tremer e discou para o número que havia evitado durante meses. Quando a voz do tio Renato atendeu no segundo toque, como se também estivesse esperando, Marina percebeu que ele sabia. Ele sempre havia sabido. E a pergunta que saiu da sua boca — "Quem é Eduardo Cavalcante?" — foi recebida do outro lado da linha por um silêncio tão pesado, tão cheio de coisas não ditas, que ela compreendeu que sua vida, do jeito que ela conhecia, havia terminado exatamente ali, naquele chão frio, com um papel amarelado entre os dedos.